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Querido Dono

© 2003 Notícias de Viseu - Edição Online, 2003-07-10

Quando eu era ainda um filhote e você me adoptou, recordo-me que se divertia muito com as minhas travessuras.
Recordo-me que me chamava de criança e apesar de eu lhe ter roído uma boa quantidade de sapatos e destruído algumas almofadas, sei que me tornei na sua melhor amiga, a sua melhor companheira, pois todos os dias dávamos longos passeios a pé. Você me ensinava a comportar bem e quando eu fazia algo de errado, logo você estalava seu dedo para mim e dizia: “como você pôde”.
Recordo-me com saudades daquelas noites de Inverno em que ficávamos juntos à lareira enquanto você via televisão, eu dormitava ao seu lado no sofá.
Como fiquei feliz quando vi a sua felicidade, no dia em conheceu a sua namorada, eu vibrava de alegria
por vê-lo apaixonado até que soube que sua esposa não era uma “apreciadora de cães”.... ainda assim eu a recebi em nossa casa com muitos latidos e muita alegria.
Então vieram os bebés humanos e eu reparti com você o entusiasmo. Eu estava encantada com os seus tons rosados, o seu choro e queria muito cuidar deles e protege-los de tudo. Como fui feliz também nessa altura, eles se agarravam ao meu pêlo e se levantavam sobre as perninhas trôpegas, enfiavam os dedos em
Seus olhos, examinavam minhas orelhas, e davam beijos em meu nariz. Eu adora tudo isso e ficava durante horas junto de suas camas escutando suas inquietações e sonhos secretos.
Certo dia ouvi uma conversa entre você e sua apaixonada e com horror ouvi você dizer que ia comprar um apartamento maior, num prédio onde não aceitavam a estadia de cães. Então meu Deus o que você iria fazer comigo que sempre o adorei na vida, meu coração saltava quando ouvia sua voz ou o barulho do motor de seu carro.
Certo dia você me chamou para darmos um passeio de carro, toda excitada com o passeio saltei para dentro do carro brincando com seus filhos. Quando o carro parou e olhei pela janela meu coração gelou. Você estava com o carro estacionado frente ao portão de um abrigo de animais.
Meus olhos não queriam acreditar no que viam, você preenchia umas papeladas enquanto dizia: Sei que vocês encontrarão um bom lar para ela”.... Elas encolheram os ombros e lançaram um olhar compadecido para mim pois elas sabiam que ninguém quereria uma cadela de meia idade. Você teve que desgarrar os dedos de seu filho agarrados na minha coleira, enquanto ele gritava: “ Não Pai! Por favor não deixe que elas levem minha cadela!” E me preocupei com seu filho e com a lição que você tinha acabado de lhe dar sobre amizade e lealdade, sobre amor e responsabilidade. Você deu um afago em minha cabeça e evitou olhar para meus olhos.
Quando voçê partiu as duas simpaticas Senhoras comigo ao colo comentavam que você provavelmente soube meses atrás da mudança que ocorreria e nada fez para me arranjar um novo lar. Elas sacudiram a cabeça e disseram “como ele pôde?”
Me colocaram num compartimento, me deitavam comida que eu recusava até que adoeci gravemente. Um dia me vieram buscar para uma sala muito silemciosa, me colocaram sobre uma mesa e acariciaram minhas orelhas. Meu coração se acelerou na expectativa do que estava para vir, mas havia também uma sensação de alivio. Uma das Senhoras me colocou gentilmente um torniquete em volta de minha perna dianteira, enquanto uma lágrima lhe corria pela face.Lambi sua mão do mesmo modo que costumava lamber a sua quando o confortava há alguns anos atrás. Ela habilmente espetou a agulha hipodérmica em minha veia. Quando senti a picada e o liquido frio se espalhava através de meu corpo, deitei a cabeça sonolenta, olhei dentro de seus olhos gentis e murmurei “Como pôde?”. Ela parecendo entender meu lamento balbuciou “Sinto tanto!” . Com minha última gota de energia tentei transmitir-lhe com uma sacudidela de minha cauda que meu “como você pôde? Não era dirigido para ela.
Era em você que eu pensava, em você que eu tanto amei. Possa você ter alguém em sua vida que lhe dedique tanta lealdade....

CANTINHO ANIMAIS ABANDONADOS DE VISEU

 
Notícias
Público, 10/07/2002
Notícias de Viseu, 12/07/2002
Diário regional de Viseu, 18/07/2002
Diário regional de Viseu, 12/08/2002
Notícias de Viseu, 30/05/2003
Revista Câes & Companhia
edição de Junho de 2003
Notícias de Viseu, 10/07/2003
Notícias de Viseu, 10/07/2003
Notícias de Viseu, 17/07/2003
Jornal do Centro, 17/10/2003
Folha de Tondela, 18/02/2004
 
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