Quando eu era ainda um filhote e você me adoptou,
recordo-me que se divertia muito com as minhas travessuras.
Recordo-me que me chamava de criança e apesar de eu lhe ter roído
uma boa quantidade de sapatos e destruído algumas almofadas, sei
que me tornei na sua melhor amiga, a sua melhor companheira, pois todos
os dias dávamos longos passeios a pé. Você me ensinava
a comportar bem e quando eu fazia algo de errado, logo você estalava
seu dedo para mim e dizia: “como você pôde”.
Recordo-me com saudades daquelas noites de Inverno em que ficávamos
juntos à lareira enquanto você via televisão, eu
dormitava ao seu lado no sofá.
Como fiquei feliz quando vi a sua felicidade, no dia em conheceu a sua
namorada, eu vibrava de alegria
por vê-lo apaixonado até que soube que sua esposa não
era uma “apreciadora de cães”.... ainda assim eu a
recebi em nossa casa com muitos latidos e muita alegria.
Então vieram os bebés humanos e eu reparti com você o
entusiasmo. Eu estava encantada com os seus tons rosados, o seu choro
e queria muito cuidar deles e protege-los de tudo. Como fui feliz também
nessa altura, eles se agarravam ao meu pêlo e se levantavam sobre
as perninhas trôpegas, enfiavam os dedos em
Seus olhos, examinavam minhas orelhas, e davam beijos em meu nariz. Eu
adora tudo isso e ficava durante horas junto de suas camas escutando
suas inquietações e sonhos secretos.
Certo dia ouvi uma conversa entre você e sua apaixonada e com horror
ouvi você dizer que ia comprar um apartamento maior, num prédio
onde não aceitavam a estadia de cães. Então meu
Deus o que você iria fazer comigo que sempre o adorei na vida,
meu coração saltava quando ouvia sua voz ou o barulho do
motor de seu carro.
Certo dia você me chamou para darmos um passeio de carro, toda
excitada com o passeio saltei para dentro do carro brincando com seus
filhos. Quando o carro parou e olhei pela janela meu coração
gelou. Você estava com o carro estacionado frente ao portão
de um abrigo de animais.
Meus olhos não queriam acreditar no que viam, você preenchia
umas papeladas enquanto dizia: Sei que vocês encontrarão
um bom lar para ela”.... Elas encolheram os ombros e lançaram
um olhar compadecido para mim pois elas sabiam que ninguém quereria
uma cadela de meia idade. Você teve que desgarrar os dedos de seu
filho agarrados na minha coleira, enquanto ele gritava: “ Não
Pai! Por favor não deixe que elas levem minha cadela!” E
me preocupei com seu filho e com a lição que você tinha
acabado de lhe dar sobre amizade e lealdade, sobre amor e responsabilidade.
Você deu um afago em minha cabeça e evitou olhar para meus
olhos.
Quando voçê partiu as duas simpaticas Senhoras comigo ao
colo comentavam que você provavelmente soube meses atrás
da mudança que ocorreria e nada fez para me arranjar um novo lar.
Elas sacudiram a cabeça e disseram “como ele pôde?”
Me colocaram num compartimento, me deitavam comida que eu recusava até que
adoeci gravemente. Um dia me vieram buscar para uma sala muito silemciosa,
me colocaram sobre uma mesa e acariciaram minhas orelhas. Meu coração
se acelerou na expectativa do que estava para vir, mas havia também
uma sensação de alivio. Uma das Senhoras me colocou gentilmente
um torniquete em volta de minha perna dianteira, enquanto uma lágrima
lhe corria pela face.Lambi sua mão do mesmo modo que costumava
lamber a sua quando o confortava há alguns anos atrás.
Ela habilmente espetou a agulha hipodérmica em minha veia. Quando
senti a picada e o liquido frio se espalhava através de meu corpo,
deitei a cabeça sonolenta, olhei dentro de seus olhos gentis e
murmurei “Como pôde?”. Ela parecendo entender meu lamento
balbuciou “Sinto tanto!” . Com minha última gota de
energia tentei transmitir-lhe com uma sacudidela de minha cauda que meu “como
você pôde? Não era dirigido para ela.
Era em você que eu pensava, em você que eu tanto amei. Possa
você ter alguém em sua vida que lhe dedique tanta lealdade....
CANTINHO ANIMAIS ABANDONADOS DE VISEU