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JORNAL
PÚBLICO, Quarta-feira, 10 de Julho de 2002
"Cantinho dos
Animais" abriga já 500 bichos. Directora diz que não há condições
para receber mais
Com a chegada do Verão, aumentou significativamente o número de cães
abandonados à porta do "Cantinho dos Animais", em Viseu,
estando a instituição em situação de ruptura. O cenário repete-se
todos os anos e este não está a ser excepção, como confirmou Ana
Maria, da direcção, que, desolada, contou que "só nos últimos
três dias deixaram-nos à porta oito cães".
A funcionar desde 1990, o "Cantinho dos Animais" -
reconhecido como entidade de utilidade pública em 1996 - celebrou um
protocolo com a Câmara Municipal de Viseu, pelo qual foi autorizado a
funcionar como canil. Mas a sua acção estende-se muito para além
disso e os trabalhadores (todos voluntários) não têm mãos a medir,
com os 500 cães a que actualmente o "Cantinho" já dá
abrigo. É "a lotação máxima", dado que não há condições
físicas para receber "nem mais um" animal, explica Ana Maria.
Porém, as pessoas continuam, diariamente, a abandonar cães à porta
do "Cantinho", em situações muitas vezes
"desumanas", que vão "desde amarrarem a um poste cadelas
com cachorros pequenos; deixarem animais que estão literalmente podres,
ou porque foram atropelados ou porque têm doenças das quais não foram
tratados; cães com patas esmagadas, etc.", explica Ana Maria.
"Muitos dos que nos são deixados aqui são cães caros, de raça.
Já tivemos um são-bernardo, rottweilers e actualmente temos uma
yorkshire e um husky", esclareceu.
"Apenas um objecto"
Ana Maria culpa as pessoas que "vêem os cães apenas como um
objecto, de que depois acabam por se ver livres", bem como, a
maioria das câmaras municipais, que "não têm canis que cumpram
as condições impostas por lei. A acrescentar a isto, "a Direcção-Geral
de Veterinária e a Direcção-Geral de Agricultura não fiscalizam os
canis, acusa. Por isso, "vêm aqui muitas pessoas de vários
concelhos vizinhos, como Mangualde, Sátão, Oliveira do Hospital, São
Pedro do Sul... Muitas vezes, vêm na esperança de que os animais
tenham um destino melhor do que aquele que teriam se fossem levados para
os canis municipais".
Mas, segundo a direcção do "Cantinho dos Animais", com a
actual lotação, não pode ser recolhido nem mais um cão, o que
significa que "os que são deixados aqui nas imediações ficam lá
fora e muitos acabam por morrer, ou atropelados, ou envenenados,
provavelmente por pessoas que têm propriedades aqui na zona e até já
aconteceu serem mortos a tiro".
O "Cantinho dos Animais" oferece cães a quem se
comprometer a "cuidar bem deles e a nunca os abandonar". Para
facilitar a doação de fêmeas "está-se a promover uma campanha
de esterilização gratuita". A direcção propõe também soluções
para quem vai de férias, recebendo os animais ou "quando já não
há espaço para os receber aqui (no 'Cantinho'), nós vamos a casa das
pessoas que só têm de nos deixar a chave do portão e nós levamos
comida, passeamos com eles e lavamos o sítio onde eles estão",
afirma Ana Maria.
"Hoje só abandona um cão quem for um monstro!",
desabafou. Por isso, Ana Maria defende a introdução de "um 'microchip'
para que se possam identificar os donos de cães abandonados", bem
como a aplicação de pesadas coimas a quem o fizer.
Maria Albuquerque
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